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Análise Lírica: Paul McCartney - Another Day

Por Gustavo Squall • 13/05/2008 • Categoria: Destaque

Another DayGosto quando música - ou qualquer coisa - desperta em mim vontade de tentar entender algo mais a fundo, e Another Day do Sir Macca, vulgo Paul McCartney, é uma música no mínimo desafiante. Se você não entende inglês, ou pelo menos não prestar atenção na letra, vai achar que é uma música feliz, alegre, condescendente com as flores da primavera. Uma daquelas músicas que tu ouves despretensiosamente, que flui fácil dentre seus ouvidos. Mas pega a letra pra ler. É um soco no peito, cara.

Criamos rapidamente uma relação. E é aí que você se decepciona. Não, não se decepciona com a música nem com o lirismo dela, mas se decepciona com teu futuro. É, o seu mesmo. Seu amanhã. E aí tu lembras que teu futuro será parecido com o meu também. E com o dela. E com o dele. E com o do MUNDO, salvo excessões. Assim Macca nos diz.

A música conta a história de uma garota aparentemente normal, com uma vida estável. Mas no lugar da garota, poderia entrar você, ou um cara comum também, como eu, tanto faz, vocês entenderam. Enquanto ele vai cantando os versos melodiosos da canção, a rotina da garota vai aparecendo. E começa a bater a identificação.

Versos como:

Every day she takes a morning bath she wets her hair,
Wraps a towel around her
As she`s heading for the bedroom chair
…..
At the office where the papers grow she takes a break,
Drinks another coffee
And she finds it hard to stay awake

Entre cada verso, depois ele completa, dizendo nada mais do que o óbvio:

It’s just another day

É só mais dia. Um dia tedioso, comum, medíocre, normal, sem nada de novo, sem nada de interessante. Hoje, um dia COMUM, como ontem, como será amanhã. E ele continua, baixando o nível pro emocional. A rotina é comum, o que sobra disso vem depois:

So sad, so sad,
Sometimes she feels so sad.

Já era mais do que esperado, não? Ela se sente triste e solitária, idealizando o amor de sua vida. E ela então idealiza um cara com quem ela está se relacionando, ou pelo menos a letra deixa a entender isso. E ele entra pela porta. Ela pede pra ele ficar. E como Macca mesmo diz:

And he comes and he stays
But he leaves the next day,
So sad.

É, todo o encantamento é quebrado. Ele veio pra quebrar. Ela idealizou o cara errado. Mas afinal, qual idealização é correta? Existe uma idealização que não é errônea? Ou só o fato de idealizar já é errado?

As she posts another letter to the sound of five,
People gather ’round her
And she finds it hard to stay alive

It’s just another day

E claro, é só mais um dia. Foi só mais um dia, nada de surpreendente.

Depois disso tudo, ele repete a música TODA de novo, cantando os MESMO versos, sem mudar nem uma vírgula ou nota musical. Isso pode ser só um truque para preencher a canção e torná-la mais longa. Mas eu acredito que seja de propósito, para evidenciar a rotina de repetição, e a repetição da rotina. Obviamente, é só mais um dia, como o de ontem, como o de amanhã, como ele gosta de nos lembrar a todo momento.

E a música termina com a frase “it’s just another day” sendo repetida.

Música foda. Meio que sarcástica, pois o modo como ele canta mostra uma certa ironia. Eu ouço isso. A melodia não é triste como a letra sugere que deveria ser. É alegre, é animada, campos verdes de montanhas e dias ensolarados.

Como eu entendo isso? Entendo que McCartney quis evidenciar um certo “conformismo” no ar. Tipo, todo mundo vive assim, o mundo se resume a isso. Já estamos todos conformados, e vamos tentar ser felizes assim, vivendo um dia após o outro, e deixando pra trás os chamados “another days”. Por outro lado, mostra também que ele não concorda com isso, pois se ele evidencia o fato, é claro que fica sendo uma crítica. Subentendida, mas uma crítica.

Daí surge a tão famosa pergunta, que todos sabem a resposta mas poucos ousam vivê-la: Será que vale a pena ficar respirando ácaros do ar condicionado, cultivando uma LER maldita e caindo numa rotina maçante em troca de algo que nem sabemos ao certo?

See you guys! :)

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Gustavo Squall é mineiro de Belo Horizonte. Acha que é programador, guitarrista, escritor e filósofo nas horas vagas. Escreve sobre música e mais o que passar pela sua cabeça no seu site, Multiverso Quântico. Geralmente ninguém concorda com suas opiniões, mas só geralmente.
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5 Comentários »

  1. Cara… to ansioso pra ler uma análise sua de “She Said She Said”. Aí eu quero ver o bicho pegar! Abraço!

  2. hahaha boa idéia Tiago!
    A propósito, já escutou a versão do Gov’t Mule pra She Said She Said? Fodaça!

    Abraços!

  3. Opa! Preciso ouvir essa versão! Vou procurar e depois comento com vc. Abraço!

  4. Rapaz… gostei muito da sua análise da canção do nosso querido Paul McCartney. É isso mesmo, uma canção foda, uma letra foda, tudo isso passado numa melodia e numa harmonia que soam alegres e despretensiosas… aliás, essa canção faz parte da trilha sonora do filme “Como se fosse a primeira vez”, em que a vida da personagem principal é tudo isso que você falou na sua resenha… medíocre, tediosa, uma mesmice, pelo menos para as pessoas que a cercam, já que ela vive sempre o mesmo dia por um problema de memória recente causado por um acidente. Apesar disso, o filme é bem “água com açúcar”…

    Ah, mudando um pouco de assunto, valeu pela materia sobre o Velho Joe, minha banda! É dessa força que a gente precisa cara, é o que nos faz continuar também! Reconhecimento por parte de algumas pessoas, especiais de certa forma. Obrigado!

    Grande abraço!

  5. Olá, Wagner! Primeiro obrigado pelo contato e pela opinião sobre o texto do Gustavo Squall!

    Nosso objetivo na revista é falar do que gostamos e ajudar a divulgar nossas bandas preferidas! Espero que de alguma maneira, consigamos ajudar o Velho Joe. Já estou esperando pelo lançamento do disco de vocês pra falar mais dele no blog.

    Grande Abraço!

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